
Ou melhor, sede do Batalhão nº 2 da Guarda Fiscal, Évora, 21Setembro 1991
Procuramos manter viva a centenária Guarda Fiscal. Fotos antigas e actuais de instalações que lhe pertenceram, fotos de guardas, relatos de ocorrências em serviço, troca de contactos para confraternização de "picachouriços", etc. etc. Tudo é possível. Envie correspondência para picachouricos@gmail.com (tudo em minúsculas)
Ou melhor, sede do Batalhão nº 2 da Guarda Fiscal, Évora, 21Setembro 1991
O nosso colaborador José Jorge enviou-nos um excelente relato de como era a vida nos postos da raia terrestre no início dos anos 60. Por coincidência, o José Jorge efectou serviço nesta zona da fronteira e pertenceu à Secção de Safara, pelo que faz todo o sentido inserir o seu testemunho conjuntamente com a foto das habitações das famílias dos guarda fiscais do posto da Tomina.
Dado o interesse, abrimos uma página no nosso site que designamos " HISTÓRIAS DA VIDA FISCAL". Relatos como este do amigo José Jorge são sempre bem - vindos. o endereço para o envio é: picachouricos@gmail.com
A VIDA FISCAL NA FRONTEIRA TERRESTE NO INÍCIO DOS ANOS 60, por José Jorge
Em primeiro lugar, quero fazer aqui uma rectificação referente ao Posto Fiscal da Foz dos Pardais. Quero informar que, por lapso meu, disse que pertencia à Secção de Safara, o que não é correcto, pertencia, sim, à Secção do Alandroal.
O Posto em que eu prestei serviço na Secção de Safara, desde o final do ano de 1963 até Outubro de 1964, foi no Posto de Vale de Malhão, que tinha por Posto mais próximo o Posto de Vale de Grou.
Neste Posto de Vale de Malhão, havia boas condições habitacionais, pois a construção da (casa) Posto, como as habitações para os guardas casados, eram novas, e já tinham algumas condições de habitabilidade, embora a luz que existia fosse produzida por candeeiros a petróleo. A água que se consumia no Posto, e nas habitações, provinha de um poço que se encontrava a mais ou menos 80/100 metros, e no qual havia uma bomba manual com uma grande roda em ferro. Assim, todos os dias logo pela manhã, 7/8horas, íamos quatro guardas fiscais, durante uma hora ou até hora e meia, manejar à força de braços aquela roda de ferro que fazia movimentar a bomba e assim se enchiam os depósitos de água para todo o consumo.
O efectivo do Posto era composto por seis praças e um cabo, sendo este o comandante do Posto. Se a memória não me falha, nenhum de nós, guardas, tinha transporte e todos os dias, excepto sábados, domingos e feriados, tinha que se deslocar um guarda a Santo Aleixo (a pé) para fazer o transporte de algum possível correio, só que 70/80 % das vezes não havia correio. O guarda que fazia este serviço, depois de percorrer 24 Km a pé, à noite ainda ia fazer o serviço de aguardo de 4/6horas. Durante a noite é que era um problema, pois os lobos chegavam a escassos metros da zona habitacional. Quanto ao contrabando existente na área do Posto, era muito reduzida e insignificante, como por exemplo: 2/3 Kg de toucinho, meia dúzia de pratos de pirex,1/2/ou 3 pares de sapatilhas e nada mais.
A aquisição de alimentos era um problema pois a aldeia mais próxima que tínhamos ficava a 12 Km, Santo Aleixo da Restauração. Durante a semana, quando íamos ao correio,comprávamos o necessário e quase todas as compras ficavam na loja do srº. Rodrigues. Ao sábado, ia um Srº. com 2 ou 3 azininos (burros) fazer o transporte dos nossos produtos e nós no fim de cada mês pagávamos a esse Srº. Quero recordar que na altura um Guarda Fiscal recebia de vencimento 1150$00, ilíquido. Líquido ficava-se pelos 950/960$00, o equivalente a 4,80euros de hoje. Como muitos sabem, éramos obrigados a andar 24h00 por dia fardados, excepto quando pedíamos uma autorização para trajar civilmente. E assim era a nossa vida, férias só tínhamos direito a elas decorridos 1 ano de serviço e ainda tínhamos de ter a sorte de o cabo, comandante do Posto, não informar que o guarda não merecia férias ( na altura se denominava licença).
Quanto ao Posto da Foz dos Pardais, só quem lá esteve é que pode avaliar aquilo que nós, G.Fiscais, sofremos naquele tempo. O Posto era isolado. Não havia qualquer caminho de acesso numa distancia de mais ou menos 3 Km. O caminho que existia era uma vereda. Ali, nós, os Guardas, já quase todos tínhamos transporte próprio ( um ciclomotor), o meu era uma Famel Foguete que comprei, em segunda mão, pelo preço de 3.600$00 (o equivalente hoje a 18,00euros) e que paguei em 12 prestações, o que era muito dinheiro para quem ganhava 960$00 por mês.
A aldeia mais próximo que tínhamos era Mina do Bugalho. Quanto às condições habitacionais eram mais que indignas. As barracas eram feitas de pedra e barro, as portas eram de tábuas de cofragem e o telhado era de colmo ( palha de centeio malhado). A água para bebermos tínhamos que a ir buscar com um cântaro de barro a uma fonte um pouco distante do Posto, o seu transporte era feito ao nosso ombro. Relativamente à nossa alimentação, cada qual fazia a sua - todos tínhamos um fogareiro a petróleo. As camas eram tarimbas, ou seja, feitas com paus e o colchão era uma esteira com mais ou menos 0,05 metros de espessura.
Era horrível, os guardas casados tinham as mesmas condições. Recordo que houve uma mulher de um colega, de nome João Sanches, que teve que dar à luz numa dessas barracas, porque havia uma ribeira e, quando chovia muito e o caudal de água era grande, ficávamos incomunicáveis. Lembro-me que foi o meu amigo J.Sanches, pai do bebé, que teve que ser o parteiro e assistente da esposa, pois não se conseguia sair dali devido ao caudal da ribeira.
O efectivo do posto: 6 Praças e 1 cabo,comandante do Posto, o srº António Rodrigues Calado, natural de Arronches. No posto existia uma camarata, com 6 camas, que só era utilizada pelos 2 guardas de serviço. Era o plantão que tinha que fazer toda a limpeza do posto, tinha que ir buscar o cântaro cheio de água e permanecia 24 horas de serviço no Posto, depois à noite tinha um apoio que era denominado de pernoita, que fazia 12h00 de serviço. Entrava às 20h00 e saía às 08h00 do dia seguinte. Depois seguia para ir ao correio a caminho da Mina do Bugalho. O mínimo de horas de serviço que fazíamos eram de 12h00 diárias sempre fardados e só tínhamos um dia de descanso (folga) quinzenal, mas mesmo assim tenho grandes recordações da grande camaradagem e amizade que reinava nesta grande Família que era a GUARDA FISCAL. O efectivo deste Posto era o cabo Calado, J.Sanches , J.M.Carrilho, A.Transmontano, Herminigildo Varela, A.S.Castelo e eu José Jorge.
Um abraço a todos os picachouriços.
José Jorge
Não deixa deixa de ser significativo que no Centenário da República tenha desaparecido um dos militares que, arriscando a sua carreira, participou no golpe de 25 de Abril de 1974 que deu origem à II República e ao actual Estado de Direito Democrático.
Enquanto Comandante da GF tomou algumas medidas polémicas, contudo é da sua lavra a reorganização da instituição e a implementação do sistema LAOS para vigilância da fronteira marítima. O sistema LAOS usava tecnologia de ponta e era um dos sistemas de vigilância costeira mais avançados do mundo, que se traduziu pela detecção de muitas toneladas de mercadorias contrabandeadas.
Lembramos que Espanha, então, não tinha equipamento que se assemelhasse ao usado pela Guarda Fiscal e o LAOS era motivo de orgulho para Portugal e alvo de "inveja" por parte de nuestros hermanos. Hoje Espanha "ri" dos meios usados pela actual UCC. A GNR deixou de pagar a manutenção do equipamento herdado da velha GF que está todo, praticamente, inoperacional ou sofrendo de forte "miopia". Com a extinção de muitos destacamentos, subdestacamentos e postos na orla costeira, com a operacionalidade baixa dos velhos equipamentos, centenas de quilómetros de costa são deixados à guarda de uma única patrulha auto, sem qualquer equipamento de visão nocturna, numa situação que só encontraremos paralelo antes de 1885.
É também com Hugo dos Santos que se dá uma forte incentivo à investigação das infracções fiscais, especialmente do contrabando, com a modernização das FINT, Forças de Intervenção, que passaram a ter viaturas descaracterizadas e pessoal que trajava sempre à civil para melhor cumprir essa missão. Mercê desse trabalho, a GF introduziu-se no seio das redes contrabando, com pessoal infiltrado e investigadores fora do país, nomeadamente no norte de África.
No dia em que o nosso último comandante faleceu, passou a estar disponível on-line um excelente site sobre a Guarda Fiscal, fruto do trabalho dos Senhores Coronéis Gamboa Marques e Victória. Congratulações aos autores que assim, indubitavelmente, homenageiam o General Hugo dos Santos e a GF . O link já se encontra, ao lado, neste nosso blog.