
Faleceu no passado dia 05 de Outubro, data comemorativa dos 100 anos da implantação da República, o último Comandante Geral da GF, General Hugo dos Santos. Talvez "ofuscada"pelas comemorações do centenário, a sua morte passou, ingratamente, quase despercebida nos órgãos de Comunicação Social.
Não deixa deixa de ser significativo que no Centenário da República tenha desaparecido um dos militares que, arriscando a sua carreira, participou no golpe de 25 de Abril de 1974 que deu origem à II República e ao actual Estado de Direito Democrático.
Último comandante da única e centenária força de segurança que tinha prevalecido desde os tempos da Monarquia, ficou associado à sua extinção em 1993. Figura controversa, mas de nobres ideais, foi considerado persona non grata por muitos guarda fiscais que lhe atribuem, quanto a nós injustamente, o fim da GF.
E se é certo que a extinção foi uma decisão política de que são principais responsáveis, Aníbal Cavaco e Silva, Dias Loureiro e Oliveira e Costa, não deixa de ser verdade que no caso de Hugo dos Santos a solidariedade e fortes princípios éticos, que se dizem apanágio dos militares, foram esquecidos, pois a extinção da GF e a integração como BF na GNR foi engendrada nas suas costas, nomeadamente pelas chefias da GNR de então.
Perante tal quadro de hostilidade, ou de traição, por parte de alguns dos seus camaradas de armas, a sua demissão foi um acto de nobreza e a única resposta possível, embora, como saibamos, essa decisão tenha sido prejudicial para todo o efectivo que ficou sem o seu Comandante. Comandante que tinha obrigação de continuar a defender os seus militares enquanto não fosse completamente realizada a integração na GNR e nos outros serviços e forças de segurança.
Enquanto Comandante da GF tomou algumas medidas polémicas, contudo é da sua lavra a reorganização da instituição e a implementação do sistema LAOS para vigilância da fronteira marítima. O sistema LAOS usava tecnologia de ponta e era um dos sistemas de vigilância costeira mais avançados do mundo, que se traduziu pela detecção de muitas toneladas de mercadorias contrabandeadas.
Lembramos que Espanha, então, não tinha equipamento que se assemelhasse ao usado pela Guarda Fiscal e o LAOS era motivo de orgulho para Portugal e alvo de "inveja" por parte de nuestros hermanos. Hoje Espanha "ri" dos meios usados pela actual UCC. A GNR deixou de pagar a manutenção do equipamento herdado da velha GF que está todo, praticamente, inoperacional ou sofrendo de forte "miopia". Com a extinção de muitos destacamentos, subdestacamentos e postos na orla costeira, com a operacionalidade baixa dos velhos equipamentos, centenas de quilómetros de costa são deixados à guarda de uma única patrulha auto, sem qualquer equipamento de visão nocturna, numa situação que só encontraremos paralelo antes de 1885.
É também com Hugo dos Santos que se dá uma forte incentivo à investigação das infracções fiscais, especialmente do contrabando, com a modernização das FINT, Forças de Intervenção, que passaram a ter viaturas descaracterizadas e pessoal que trajava sempre à civil para melhor cumprir essa missão. Mercê desse trabalho, a GF introduziu-se no seio das redes contrabando, com pessoal infiltrado e investigadores fora do país, nomeadamente no norte de África.
Esta actuação veio colidir com os "interesses" da PJ e começou a retirar-lhe protagonismo, nomeadamente nas apreensões de droga e tabaco. Há quem defenda que a extinção da GF foi "sentenciada" por ter "desafiado" a PJ nesta área sensível.
Esperamos que com o passar do tempo a verdade seja aclarada e seja reconhecido ao General Hugo dos Santos o devido valor enquanto comandante da GF.
No dia em que o nosso último comandante faleceu, passou a estar disponível on-line um excelente site sobre a Guarda Fiscal, fruto do trabalho dos Senhores Coronéis Gamboa Marques e Victória. Congratulações aos autores que assim, indubitavelmente, homenageiam o General Hugo dos Santos e a GF . O link já se encontra, ao lado, neste nosso blog.